Grupo Dom Bosco: Precisa-se de uma Catarina de Sena

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Precisa-se de uma Catarina de Sena


ANTEONTEM, dia 30 de abril, a Igreja comemorou mais um aniversario no céu de Catarina Benincasa, nascida em Sena, em 1347, e falecida, aos trinta e três anos de idade, no esplendor da santidade. 0 Introito da missa resume toda a contrastada vida da terceira dominicana, padroeira da Itália: "Dilexisti justitiam et odisti iniquitatem". 

Sim, foi o amor das coisas do Reino de Deus e o ódio do pecado que polarizaram toda a extraordinária vida da moça pobre, filha de um tintureiro, frágil, iletrada, e todavia capaz de manifestar diante dos homens as grandezas de Deus. Até os vinte e um anos viveu obscuramente na sua casa modesta, servindo uma família enorme e exigente. Sua boa mãe não entendia os sacrifícios e os jejuns que a filha desde cedo se impunha. Com paciência heroica, Catarina suportou e venceu todas as dificuldades familiares e conseguiu viver uma intensa contemplação nos vagares que a casa lhe permitia.

Aos vinte e um anos, numa noite de terça-feira de carnaval, fechada em sua cela, Catarina recebeu visitas deveras extraordinárias: apareceu-lhe O Senhor com vestes nupciais, acompanhado de sua Mãe, de São João e São Paulo, e do profeta Davi, com sua harpa. Colocando em seu dedo um anel de ouro, disse-lhe O Senhor: "Eu, teu Criador e teu Salvador, te esposo na Fe que guardarás sem mancha ate o dia em que te esposarei no céu". 

Começa então a vida ativa de Catarina, e sua extraordinária influência junto aos dirigentes do mundo. Depois de poucos anos de pregação do pequeno grupo que a acompanhava, Catarina empreendeu a aventura de restaurar o trono de Pedro em Roma, o Papa Gregório XI estava em Avignon, entre seus cortesaos que levavam vida escandalosa. Expulso de Roma pelas intrigas que fervilhavam em torno do Vaticano, o Papa se deixara entregar às más influencias de parentes e seguidores mundanos. E é nesse meio que a filha do tintureiro vai busca-lo e vai traze-lo para Roma quase de rastros.

Os intrigantes querem obstar de todos os modos a partida do Papa, mas a palavra de Catarina, moça humilde de vinte e quatro anos, soa aos ouvidos do Papa com um acento irresistível: "Ide", lhe diz ela numa carta, "correi depressa à Esposa que vos espera pálida e moribunda. Restituí-lhe a vida!". 

O Papa embarca com sua côrte. Em Gênova, os cardeais querem convencê-lo a voltar para Avignon. O Papa hesita, e declara que quer ouvir Catarina, que voltara a Roma por terra. O Papa sabe que Catarina está em Gênova, mas não consegue de seus seguidores que ela venha a bordo do navio. Para lograr tal encontro, o Papa lança mão de um estratagema de romance policial: disfarça-se, e consegue desembarcar para ter uma entrevista com a alma de fogo que tinha palavras do céu.

Encontra-se, afinal, com Catarina, que lhe diz como tantas vezes disse ao seu confessor Raimundo Capua: "Sê homem!" E fala-lhe longamente do palácio de sangue e fogo onde O Rei celebra as bodas de seu Filho. Volta o Papa reanimado, e os cortesãos, os maus prelados, os demonii incarnati, como os chamava Catarina, não conseguem mais detê-lo. Dias depois a galera pontifical sabe o Tibre, e o Papa desembarca em meio da multidão delirante. 

Mais tarde, morto Gregório XI e eleito Urbano VI, os demonii incarnati produzem o grande cisma que afligirá a Igreja durante muito tempo, e que prepara a ferida maior da Reforma. Abandonado por seus cardeais, Urbano chama Catarina e diz: "Esta mulher fraca nos envergonha a todos nós!" 

Catarina organiza o combate: suas armas são o jejum, a penitência e a oração. Escreve aos seus discípulos, escreve ao Rei de França, escreve à rainha de Nápoles que vacila. A cristandade está dividida entre duas obediências; ninguém mais se entende. Onde está a Igreja? O provérbio clássico tornou-se ambíguo: Ubi Petrus, ibi Ecclesia. Mas onde está Pedro? Serio caso de dizer: Ubi Caterina, ibi Petrus.

É nesse tempo de gravíssimas perturbações na Igreja que Catarina escreve o seu "Diálogo da Divina Providência"... Disse eu, mais de uma vez, que ela escreve, mas seria mais correto dizer que ela dita as cartas que hoje enchem seis volumes, porque ela não sabia escrever. Sim, dita, e dita o Diálogo em êxtase, com palavras que recebe de Deus. Ela sabe que, nos momentos mais aflitivos da Igreja, é preciso ouvir a palavra de Deus, voltar à palavra de Deus, meditar a palavra de Deus.

Dias depois, oferecendo a vida pela Igreja, pela Navicella, Catarina morre gritando súplicas de perdão: "- Miserere... miserere... Tu me chamas, Senhor, e eu vou, eu vou, não por meus méritos, mas por teu sangue. Ó sangue!"

Meditando êsses e outros passos da vida fecundíssima de Santa Catarina de Sena, tive hoje a idéia de elevar a Deus uma súplica em forma de anúncio de jornal: precisa-se de uma Catarina de Sena. O mundo de hoje está em situação pior do que estêve no trecento. E creio que não são menos abundantes, em tôrno do Papa, e pelo mundo todo, nem menos perniciosos hoje, aquêles que a Santa chamava de demonii incarnati. Tudo indica que devemos organizar o combate com as mesmas armas de Deus: a penitência, o sacrifício e a oração.

Gustavo Corção - 02-V-1968

Nenhum comentário:

Postar um comentário