Grupo Dom Bosco: Sermão da Festa da Santa Cruz - Pe. René Trincado

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sermão da Festa da Santa Cruz - Pe. René Trincado


Ele venho primeiro, e levou sua cruz e morreu na cruz por ti para que tu também a leves e desejes morrer nela. Porque se morres junto com Ele, viverá com Ele. Verdadeiramente, da cruz tudo depende, e em morrer para si mesmo está tudo. (Imit. De Cristo, L. II, cap. XII)

Estimados fiéis, celebramos a festa da Exaltação da Santa Cruz. Porque os padecimentos dos católicos são como farpas [fragmentos] da cruz de Cristo, convém recordar, nesta ocasião, algumas verdades sobre o sofrimento.

A primeira verdade que convém recordar é que nesta vida é impossível evitar o sofrimento e que não é por sermos católicos que vamos sofrer menos.

Cristo disse que vamos sofrer. Em qual parte dos Evangelhos há a promessa de uma felicidade completa ou estável nesta vida? Ao contrário, nos diz: Bem aventurados os que sofrem na terra, porque serão felizes no Céu. Onde disse N. Senhor que estaremos livres de tribulações? Ao contrário, nos promete dizendo: no mundo tereis tribulações, mas, ânimo! Eu venci o mundo.

Se não podemos evadir o sofrimento, se trata então de saber sofrer, de saber levar a cruz. Diz “A Imitação de Cristo”: "Se te dispõe a fazer o que deves, isto é, sofrer e morrer, terás paz. Aquele que sabe sofrer melhor, terá maior paz. Este é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu" (L. II, cap. III e XII).

A segunda verdade é conseqüência da primeira: temos que aceitar o sofrimento. Devemos perguntarmo-nos se vivemos como amigos ou como inimigos da cruz de Cristo. Porque o mundo nos arrasta a buscar sempre o bem-estar, a comodidade e o prazer, e a evitar e detestar todo sofrimento. Se esta é nossa atitude habitual, não sabermos sofrer e somos inimigos da Cruz de Cristo.

Se diz em certa poesia citada por S. Luis Grignón de Montfort em sua “Carta aos amigos da Cruz”:

Escolha uma cruz das três do Calvário;
Uma deve ser escolhida, então escolha corretamente;
Vocês devem sofrer como um santo ou um bandido arrependido,
Ou como um reprovado, em uma tristeza sem fim.

Há, então, três maneiras de sofrer: como santo, como penitente e como réprobo. Como santo sofria Cristo, como penitente sofria Dimas, o bom ladrão, e como réprobo sofria Gestas, o mau ladrão. Os três sofriam o mesmo tormento da Cruz. Dos dois ladrões, dos dois pecadores do Calvário, um desde a cruz subiu ao Céu e o outro desde a cruz caiu ao inferno. Este recusou a cruz, aquele a aceitou, e Cristo a amou.

Sofremos em justo castigo pelo pecado original e por nossos pecados pessoais. Portanto, ninguém, quando estiver crucificado, pense que Deus o trata injustamente, senão diga com Jó: Deus dá e Deus tira. Como Deus quis, assim se fez. Bendito seja o Nome de Deus (Jó I, 21); e com o publicano: tem piedade de mim, Senhor, porque sou um pecador (Luc. XVIII, 13). Também sofremos para sermos purificados. Porque quer Deus – se lê em “Kempis”- que aprendas a sofrer a tribulação sem consolo, e que te submetas de todo a Ele, e te faças mais humilde com a tribulação. E tem por certo que te convém morrer vivendo, pois quanto mais morre cada um a si mesmo, tanto mais começa a viver para Deus. Porque temes tomar a cruz, pela qual se vai ao reino? Na cruz está a saúde, na cruz está a vida, na cruz está a defesa dos inimigos, na cruz está a infusão de suavidade soberana, na cruz está a fortaleza do coração, na cruz está o gozo do espírito, na cruz está a suma virtude, na cruz está a perfeição da santidade. Não está a saúde da alma nem a esperança da vida eterna, senão na cruz. Toma, pois, tua cruz, e segue a Jesus, e irás para a vida eterna (L. II, cap. XII).

Dos crucificados no Calvário, um recusava a cruz, outro a aceitava e Cristo a amava. Não só devemos aceitar com resignação as cruzes, senão que Deus nos pede dar um passo a mais, ou melhor, um salto ao infinito. Este passo é algo totalmente incompreensível e uma loucura para os mundanos, mas é um passo de amor heróico reservado só aos católicos: deves amar o sofrimento, devemos amar a cruz. Diz “A Imitação de Cristo”: Tenho muitos amigos que dizem amar-me, mas que no fundo me aborrecem porque não amam minha Cruz. Tenho muitos amigos de minha mesa, mas muito poucos de minha Cruz (L. II, cap. II). E continua: quando chegares a tanto que a aflição te seja doce e gostosa por amor de Cristo, pensa então que vai bem; porque chegaste ao paraíso na terra. Quanto te parece pesado o padecer, e procuras fugir-lhe, creia que vai mal, e onde quer que vá te seguirá a tribulação (L. II, cap. XII).

Quando se compreende o sofrimento –disse Mons. Lefebvre (A Missa de Sempre)- este se converte em alegria e se transforma em tesouro. Nossos sofrimentos unidos aos de N. Senhor e a de todos os mártires, aos dos santos, aos de todos os católicos, aos de todos os fiéis que sofrem no mundo; nossos sofrimentos unidos à Cruz de Cristo se convertem em um tesouro inexpressável e inefável e alcançam uma eficácia extraordinária para a conversão das almas e a nossa. E aqui está a quarta verdade e mistério dos mistérios: o barro se converte em ouro, a escuridão em luz!: o sofrimento deve ser amado porque unido à cruz de Cristo se transforma em redenção.

Os pagãos e os cristãos mundanos vêem o sofrimento como um puro mal. Nós podemos sofrer para salvar almas se unimos nossos sofrimentos aos sofrimentos de N. Senhor Jesus Cristo. Como? Não é coisa fácil. Não é fácil estar sorridentes e serenos na Cruz. Mas, Cristo não nos pede isso! Deste antes da crucificação, Ele sofria angustias de morte, até o extremo de suar sangue. Como fazer, então, para unir nossas cruzes à Cruz de Cristo? Responde Kempis,humilhando nossas almas debaixo da mão de Deus em toda tribulação” (L. I, cap. 13)Isso foi o que fez o bom ladrão. Isso é tudo que Deus nos pede quando sofremos: que entre sangue, suor e lágrimas nos lembremos de sua cruz, com humildade e fé, com espírito de submissão, penitência e de adoração. O bom ladrão é um grande mestre espiritual para os que se sentem crucificados.

Porque Cristo quis nos redimir através do seu e do nosso sofrimento, o mundo, hoje mais do que nunca, e cada vez mais; odeia a cruz, odeia o sofrimento que, unido ao Cristo crucificado, adquire um valor infinito e faz-se redentor. Nós estamos firmes na fé e acreditamos que sofremos para salvar as almas, que nossas cruzes, por ser fragmento da cruz de Cristo, se fazem redentoras.

Dizia Mons. Lefevbre que Santa Terezinha do Menino Jesus, em seu Carmelo, salvou milhões de almas. Milhões de almas! Salvou milhões de almas sem fazer nada aos olhos do mundo. Como salvou milhões de almas? Pela cruz. Por tomar resolutamente a cruz, como toda alma que ama verdadeiramente a Cristo, e por desejar se crucificar, arrastada pela força invencível do fogo da caridade. Sobre esta grande crucificada, disse São Pio X: “é maior santa dos tempos modernos.” Em vez de nos queixarmos tanto e tão amargamente quando nos compete sofrer, salvemos almas! Existe algo mais nobre que isto? Por isso São Luís Maria Grignion de Montfort disse que nada há tão necessário, tão útil, tão doce, tão glorioso como padecer algo por Cristo. E A Imitação: “Não há coisa mais agradável a Deus, nem para ti mais saudável neste mundo do que sofre de boa vontade por Cristo” (II, cap. 12).
 
Encontramos em São Paulo (Col. 1, 24) estas surpreendentes palavras:  “Eu estou cumprindo em minha carne o que resta para o sofrimento de Cristo por seus corpo místico, que é a Igreja.” Santo Tomás (Sup. Coloss.) explica que não se deve pensar que a Paixão de Cristo foi insuficiente para a redenção e precisa ser completada pelos sofrimentos ou paixões dos cristãos. Tal interpretação seria herética – disse ele – porque o Sangue de Cristo é suficiente para a redenção de infinitos mundos. A verdade é que Cristo e sua Igreja são uma pessoa mística, cuja cabeça é Cristo e cujo corpo é o conjunto dos justos, e Deus dispôs a quantidade de méritos que deve haver em toda a Igreja, tanto na cabeça, quanto em seus membros. Falta que, como Cristo sofreu em seu corpo, assim sofreria em São Paulo e sofre em todos os católicos até o fim dos tempos. Falta que sofra em cada um de nós, faltam nossos sofrimentos, faltam ainda nossas pequenas farpas [fragmentos da cruz] para conformar a Cruz total. Diremos não a Cristo? Que estas farpas nossas sejam parte da Cruz gloriosa. Que não sejam arremessadas pelo vento nem sirvam para acender o fogo.

Sucede com nossos sofrimentos como com a água da chuva. Às vezes chove. Às vezes você tem que sofrer.  Todos, até certo ponto. Um de uma maneira, outro de outra. Se se deixa escorrer a água das chuvas, esta termina no mar, onde se faz amarga e suja, perde-se. Mas se a água é canalizada e represada, serve para regar as plantas e obter os desejados frutos. O sofrimento que não está unido a Nosso Senhor, não serve pra nada, se perde como as águas que escorrem. O sofrimento que aceitamos e unimos a Cristo é, ao contrário, como essas águas retidas e represadas. Que nossas lágrimas não cheguem ao mar, que sejam como essa gota de água que, na Missa, o celebrante mescla com o vinho que será consagrado. Que nossas lágrimas não se percam, senão que – por amor a Nosso Senhor – caiam sempre dentro do cálice, e façam-se Sangue Redentor de Cristo, deem muitos frutos.

Estimados fiéis, “se alguma coisa – disse Kempis – for melhor e mais útil para a salvação dos homens que sofrer, Cristo haveria declarado com sua doutrina e seu exemplo. Porém, manifestamente exorta os seus discípulos, e a todos os que desejam segui-lo, a levar a cruz dizendo : se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me  (II, cap. 12).

Depois de Nosso Senhor, quem mais sofreu na história foi a Mãe de Deus. “A Virgem Santíssima – disse Mons. Lefevbre – sofreu um martírio autêntico por meio da compaixão”, isto é, por sofrer espiritualmente unida a Cristo.” Tenha o desejo de sofrer com Nosso Senhor e com a Santíssima Virgem para a salvação de vossas almas e de todas as almas.”

Recorramos cada dia a Ela mediante o Santo Rosário, o qual começa na Cruz e termina na Cruz, para que por sua intercessão acreditemos na luz infinita que se oculta na momentânea obscuridade do sofrimento dos que amam a Deus.

Verdadeiramente, da cruz tudo depende, e em morrer para si mesmo está tudo.

Tradução: Grupo Dom Bosco

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