Grupo Dom Bosco: Roberto de Mattei e o "estilo" Francisco

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Roberto de Mattei e o "estilo" Francisco

Il Foglio, 1º de agosto de 2013
Sapatos vermelhos, maleta preta com barbeador e breviário, sem carro blindado. “Estamos agora reduzidos a avaliar um Papa a partir desses elementos, a partir de um discurso no avião, e não pelos atos de ensino” –  diz o historiador Roberto de Mattei, preocupado com o fato de que o Papa está se tornando um personagem de gravura, de talk-show. “Hoje tudo é superficial, gestos, e é neste campo que se vai procurar o sentido último das coisas, perdendo-se o conteúdo e a substância; discute-se a forma, que acaba sendo a mesma substância”, acrescenta. “Basta fazer uma comparação com a ênfase dada à Lumen Fidei, sua primeira encíclica: paradoxalmente, destaca-se mais o que é dito no avião do que o conteúdo desse texto. Ainda assim, entre os dois existe um abismo.”
De Mattei não se impressiona com a entrevista de Francisco com jornalistas a bordo do airbusque o trouxe a Roma após a semana agitada no Rio com jovens, pobres e mais fracos. Mais do que uma conferência de imprensa em vôo, “é preciso discutir os atos de governo do Papa, mesmo que eles ainda sejam poucos. Os Pontífices se exprimem com as encíclicas e os motu proprio. As palavras no avião saem no momento em que são encontradas, são opiniões improvisadas e pessoais, completamente desprovidas do caráter magisterial”. Naturalmente, o nosso interlocutor admite que “são interessantes para construir o personagem, mas permanecem aspectos marginais”.
Se tomarmos, por exemplo, as declarações sobre os gays, ou aquelas sobre Nossa Senhora,  definida pelo Papa como “mais importante do que os apóstolos, os bispos, os sacerdotes e os diáconos”, para De Mattei “são temas delicados e importantes que só podem ser construídos dentro de um discurso de ensino, e não reduzidos a um gracejo. Os gracejos podem ser significativos, mas não têm valor. “As frases improvisadas, por serem espontâneas, podem criar mal-entendidos superáveis se pronunciadas pelo homem comum, mas se tornam problemáticas quando saídas da boca do Vigário de Cristo. Lendo os comentários sobre o que foi dito por Bergoglio sobre os gays, incluindo o filósofo católico Giovanni Reale no Corriere della Sera nesta terça-feira, se parecia estar diante de uma mudança doutrinária. No entanto, tomando o texto integral das declarações de Francisco, percebia-se que ele baseou suas palavras na doutrina católica”. Trata-se de perceber onde está colocada a ênfase, que no jesuíta vindo de quase do fim do mundo é posta na mudança: “A mudança de estilo, uma revolução nos gestos e na fala”, que para De Mattei termina por “tornar-se mais profunda do que o plano doutrinário”.
A forma exprime um conteúdo, ou pelo menos deveria. O problema ocorre quando “os conteúdos são perdidos, retirados ou desviados. Nesse caso, discute-se uma forma tornada vazia. Prescindindo-se da dimensão sagrada do Papado – prossegue o historiador do Cristianismo – o sapato vermelho torna-se uma extravagância”. Um pouco de culpa em tudo isso têm também os meios de comunicação: “Eu me importo pouco se o Papa vai de Fiat 500 ou de Mercedes. Se eu me encontrasse diante de um São Pio X, talvez fosse melhor que ele usasse uma veste menos carregada”. A questão é outra, é “a redução da posição do Papa a puros gestos”, sem prestar muita atenção na substância. Mas Francisco – diz Roberto de Mattei –  “não é um tolo ou ingênuo. Pensa naquilo que faz e decidiu confiar sua mensagem mais nos gestos do que nas palavras e mais nas palavras do que nos atos pessoais do Magistério”. O medo, porém, é de que no plano midiático o Papa “esteja brincando com fogo, ao alimentar a idéia de ser capaz de dominar o mundo da comunicação. Tampouco isso é ingenuidade, mas talvez o bispo de Roma sobrestime sua habilidade política ao lidar com a realidade da comunicação”. E no mundo de hoje “há necessidade de espírito sobrenatural mais do que de cálculos políticos ou de meios de comunicação. Meu medo – continua o nosso interlocutor – é de que à força de se apresentar como um homem comum, ele realmente venha a sê-lo. Mas ele é o Vigário de Cristo, um fator que não pode deixar de ser realçado. Sapatos e sedia gestatoria tinham o mérito de expressar, possivelmente não de modo errado, esse valor de sacralidade devido ao Vigário de Cristo”, diz De Mattei.
Mas se o Papa “andasse de clergyman, como o Cardeal Bergoglio costumava fazer em Buenos Aires, que mensagem daria?”. O ponto fundamental, que não pode ser mal compreendido, é que o Papa “não é um homem como nós, e essa humanização do papado leva a esquecer seu fundamento divino e metafísico”.
Para o historiador do Cristianismo, a consequência desse processo de secularização é a eliminação das barreiras do ensino magisterial: “Quando as palavras do Papa se tornam como as de um homem comum, todas as críticas se tornam lícitas. Quando a verdade é reduzida a uma opinião, quando os conteúdos são perdidos, quando não se fala mais de valores não negociáveis​​, tudo se torna negociável, tudo se torna objeto de discussão.” Um caminho que “leva a Igreja a protestantizar-se. Este é o risco que eu vejo”, diz De Mattei.
Ainda sobre a questão da Igreja pobre, próxima dos mais fracos, missionária da periferia existencial, nosso interlocutor demonstra algumas perplexidades: “Fiquei muito impressionado que um Papa que se inspira em São Francisco de Assis por ver no frade de Assis um padrão de vida, que faz contínuas censuras ao mundanismo e gestos espirituais em favor da sobriedade, tenha endossado a decisão da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, presidida pelo cardeal brasileiro João Braz de Aviz, de atacar os Franciscanos da Imaculada.” Se há uma congregação religiosa que vive do espírito do Evangelho é justamente essa, diz De Mattei.
“São episódios desconcertantes ao se pensar que enquanto se fazem referências contínuas à simplicidade do Evangelho, a Cúria se mantém inalterada com suas estruturas. O machado cai sobre o pequeno, sobre os mais fracos, sobre os fiéis à tradição. Se Francisco quer inclinar-se para os mais fracos, não precisa ir muito longe, bastando as muitas comunidades de fiéis que permanecem teimosamente ligadas ao Magistério e à moral perene. Para aqueles maltratados ​​por seus bispos, pelos dicastérios da Cúria, isolados e demonizados. Procurar o mais distante esquecendo o mais próximo é uma falsa idéia de amor.” De Mattei precisa que não quer discutir o fato de o Pontífice se dirigir à periferia, aos mais distantes. Mais do que tudo, devemos sempre lembrar que “o caminho para chegar aos mais distantes passa pelos mais próximos, e não há atalhos possíveis. E os próximos hoje são os católicos ligados à tradição. Se há alguém precisando de misericórdia e ternura (palavras usadas por Francisco no Rio) são eles”.

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