Grupo Dom Bosco: Maio 2013

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Carta de súplica ao Pe. Morgan e padres britânicos pelos fiéis do distrito

Fonte: SPES
Tradução: Ana Luara Rinaldi - Grupo Dom Bosco

21 de Maio de 2013

Estimado Padre Morgan, estimados padres,

Vos suplicamos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo Sacerdote e amante das almas, e em nome de sua Santíssima Mãe, e em nome de Monsenhor Lefebvre, e em nome de todos os santos ideais que os levaram à converter-se em Pastores de almas, ajudem a nossas almas agora, neste momento de necessidade.

A subversão da FSSPX

Desde há algum tempo, nos sentimos traídos por uma porção da FSSPX e deixados e abandonados pela falta de resposta da outra porção. A direção da FSSPX está seguindo voluntariamente uma nova direção e uma nova agenda: refazer a Fraternidade à sua própria imagem e com temerário desprezo pelas almas que a Divina Providência colocou sob seu cuidado. Cada mês, algumas vezes por semana, novas evidências surgem do liberalismo na cabeça da Fraternidade, o qual desce até seus membros de menor classe e por fim aos fiéis. Não escutamos nem sequer uma só explicação convincente, nada que tranquilize nossas mentes, ainda que não é raro que Menzingen ou o DICI façam "aclarações" proclamando que Mons. Fellay foi mal interpretado de algum modo.

O que nos preocupa especialmente é que vemos que a nova direção está agora oficialmente arraigada na FSSPX. Recentemente comprovamos o liberalismo de Mons. Fellay na forma de uma "Declaração Doutrinal" modernista, uma declaração de sua própria posição doutrinal apresentada à Roma com sua assinatura e supostamente também representando-nos, nós os fiéis da FSSPX. Entre outras coisas, agora podemos ver que Mons. Fellay aceita a legitimidade da nova Missa (Novus Ordo), à qual Mons. Lefebvre e a FSSPX sempre tiveram como ilegítima; aceita a idéia da colegialidade, contra a qual Mons. Lefebvre sempre lutou desde o concílio porque ia contra à noção do Magistério da Igreja, substituindo-a por algo como "democracia docente" realizada pelos bispos modernos; aceita a "hermenêutica da continuidade" e a idéia de que a Tradição e a Revolução podem ser consideradas como consistentes entre si; aceita todo o Código de Direito Canônico de 1983, do qual João Paulo II disse que era o Vaticano II transformado em lei e que inclui o cânon 844 o qual prevê dar-se os sacramentos a não-católicos; ele declara explicitamente que as modernas idéias diabólicas como o ecumenismo e a liberdade religiosa são reconciliáveis com o verdadeiro ensinamento da Igreja e com a Tradição; e finalmente declara explicitamente que o Vaticano II "ilumina e aprofunda... a vida e doutrina da Igreja".

Padres, os senhores podem ver tão claramente como nós que esta declaração doutrinal é um sério insulto a Deus Altíssimo, uma traição total à missão da Fraternidade fundada por Mons. Lefebvre. Também é uma traição pessoal a cada uma das almas que coloram sua confiança na FSSPX e que trabalharam para levanta-la e fortalece-la, e consequentemente, um insulto pessoal ao Arcebispo que, longe de aceitar a nova religião da igreja conciliar, declarou que: "Começa em heresia e termina em heresia, inclusive se nem todos seus atos são formalmente heréticos". Permita-nos recordar-te, Padre, que este documento em questão não é uma declaração descartável, uma má tradução, ou uma infeliz escolha de palavras feitas no calor do momento - teve meses para prepara-la, e uma vez entregue, se esperou dois meses para saber-se se havia sido aceita ou não. Este documento, ademais, é uma Declaração Doutrinal: seu propósito é declarar a doutrina. Se um declara algo, é de se esperar que se declare em público e não secretamente. Como pode haver uma doutrina secreta?

E também, já que é uma declaração de doutrina, isto é, é a declaração do que crê Mons. Fellay, é uma perfeita estupidez que ele diga que a "retirou" - como é possível que se possa "retirar" a doutrina? Se Mons. Fellay estava preparado para crer essas coisas recentemente, mas agora diz que "retirou" seu documento secreto já que saiu à luz, então podemos assumir que ele ainda crê no documento. Como foi apanhado traindo à Fraternidade, seria muito "otimista" até o ponto da irresponsabilidade temerária, crer que ele é um de nós outra vez. Nem ele nem seus aliados são confiáveis e pensamos que se os senhores são honestos consigo mesmo, devem admiti-lo.

Como permaneceremos fiéis à Tradição?

Juntando isto com todos os outros sinais do ano passado, especialmente o Capítulo Geral e suas escandalosas "Três Condições" (e as três "condições desejáveis" - que na realidade são "três coisas pelas quais não estamos preparados para lutar e portanto estamos felizes de perder"), estabeleceram a revolução na FSSPX, e com a desobediência do Superior geral no Capítulo de 2006, se legitimou a revolução e agora é a posição oficial da Fraternidade - isto é o que nós vemos agora: a revolução dentro da FSSPX estabelecida completamente no poder.

As idéias e não as pessoas são o que nos preocupa mais. E na pessoa de Mons. Fellay, do Pe. Pfluger e em grande número de Superiores e membros do Capítulo Geral, vemos novas idéias, as mesmas que odiamos e com as quais não queremos ter parte.

Não queremos estar abaixo da influência destes padres cujas idéias e posições doutrinais são tão diferentes às nossas, e também não queremos que haja nenhum risco ou perigo para a Fé ao continuar abaixo destes padres com os quais não estamos de acordo. Não podemos deixar de recordar estas simples mas perspicazes palavras de Mons. Lefebvre: são os superiores quem formam os inferiores, não o contrário.

Para nós está claro que a FSSPX é agora um barco que afunda. Os homens que têm a autoridade sobre ela são um problema, e não podem serem removidos de suas posições (a única oportunidade real para faze-lo foi o último Capítulo geral). O que atraiu as bênçãos de Deus até à FSSPX foi sua adesão fiel à Tradição e sua determinação a não comprometer-se com o modernismo. Agora isto está sendo fraudado pelos superiores oficialmente, estes atributos já se foram. Sua ausência é a diferença essencial entre a FSSPX de antes e a de hoje. Os bons padres que se opõem ao compromisso mas que permanecem dentro da Fraternidade, são bons apesar de estar nela e não por ela. Como os senhores não podem servir a dois senhores, devem perguntar-se: à qual FSSPX desejam permanecer fiéis? Ainda que os senhores permaneçam sem ser perturbados por Menzingen à comparação de outros, têm que estar ciente do que se passa em todo o mundo com a Fraternidade. Sendo este o caso, agora é só uma questão de tempo: mais cedo ou mais tarde se os senhores não escolheram permanecer fiéis à Tradição a custo de sua adesão à FSSPX, os senhores verão que escolheram permanecer membros da FSSPX à custa de sua fidelidade à Tradição.

Padres, por favor considerem: em seu juizo, Deus não os julgará como servidores fiéis pelo que os senhores disseram ou pensaram em segredo, mas sim pelo que os senhores falaram abertamente e pelas ações que empreenderam publicamente. Nós que somos seus fiéis esperamos já há um ano que o liberalismo se torne evidente. Não quisemos atuar precipitadamente. Pedimos que nos dirijam. Sem dúvida, se os senhores não o farão, nós partiremos com grande tristeza. Está claro que a situação somente pode piorar, e sob tais circunstâncias, não vemos outra alternativa que começar novamente. Podemos ter confiança no futuro, já que a única coisa que começará novamente seriam as estruturas administrativas. A Fé permanece, e isso é o que importa.

Se nós fizermos o correto, Deus nos ajudará, pois Deus ajuda àqueles que ajudam a si mesmos, como se diz o ditado. Vos suplicamos e vos imploramos que venham em nossa ajuda e não abandonem as almas que vos necessitam por uma falsa obediência aos superiores que nos vêem como um problema, no melhor dos casos, e com quem os senhores terão cada vez menos em comum.

Deus os abençoe e os pague pelos anos de trabalho, cuidando de nossas almas.

Gregory Taylor
Waltraud Taylor
Olivia Bevan
Jeremy Bevan
Susan Warren
Alun Rowland
Anna Thompson

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sermão de Pentecostes: Pe. René Trincado

 Sermão do domingo de Pentecostes
Dia 19 de Maio de 2013
Padre René Trincado C. 


 O Catecismo de São Pio X ensina que existe o Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, que é Deus eterno, infinito, onipotente, Criador e Senhor de todas as coisas, como o
Pai e o Filho. Diz também que a obra que atribui especialmente ao Espírito Santo é a santificação das almas.
      O dia de Pentecostes, cinquenta dias depois da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e dez dias depois de sua Ascensão, o Espírito Santo desceu dos céus, de maneira visível, em forma de línguas de fogo.
Os  efeitos que produziu o Espírito Santo nos apóstolos foram estes: Os confirmou na fé, os encheu de luz, de fortaleza, de caridade e da abundância dos sete dons.
O Espírito Santo não foi enviado somente aos Apóstolos, senão a toda a Igreja e a todas as almas fiéis de todos os lugares e tempos.
O Espírito Santo transformou os Apóstolos de homens terrenais em homens divinos e santos:  os que até este dia eram débeis e pecadores, desde esse momento seriam grades santos. De ignorantes em sábios. De covardes e tímidos em valorosos e mártires.
O Espírito Santo quer fazer o mesmo em nossas almas: quer nos santificar, nos iluminar e nos fazer fervorosos.
1- Nos santificar: desde o Batismo o Espírito Santo nos fez filhos de Deus e templos seus. Pela confirmação o Espírito Santo deu-se a nós mais intensamente.
2- Nos iluminar: O Espírito Santo abre  a mente ao horizonte infinito das realidades sobrenaturais, e isto por simples que sejamos. O Espírito Santo os ensinará todas as coisas (Ev.). O homem animal não percebe as coisas que são do Espírito de Deus, porque lhe parecem uma loucura: e não as pode entender, porque devem ser julgadas espiritualmente (1 Cor  2,14).
3- Nos fazer fervorosos ou nos incendiar no amor de Cristo. Quer nos incendiar. Nosso Deus é um fogo devorador, diz a Escritura.
O que como homens débeis nos é impossível, será possível pela divina onipotência, que dará uma fortaleza sobrenatural a alma, a que se fará capaz de tudo por meio de sua graça. Não se perturbe o vosso coração nem se acovarde, nos diz Nosso Senhor. Ao contato com o Espírito Santo, o homem débil se torna forte e capaz de executar obras sublimes. Tudo posso naquEle que me faz forte (Fil 4,13). Tudo! Tudo!
Hoje como ontem, o Espírito Santo segue atuando, mas na medida que O permitimos. Se o pecado mortal o expulsa da alma, a tibieza -  que consiste em fazer um traidor acordo de paz com o pecado venial – encadeia o Espírito Santo em nossas almas. O Espírito Santo não está na alma daquele que se encontra em pecado mortal. Está na alma do tíbio, mas aprisionado, cercado, impedido, limitado e debilitado pelas voluntárias infidelidades.
Mas hoje a necessidade do Espírito Santo no mundo, na Igreja e na Tradição, é mais grave e urgente que nunca: há que defender a Cristo, a Verdade, não somente contra os maus, senão também contra muitos bons que enganados pelo Vaticano II (obra de Satanás) e o falso magistério posterior, e também, ultimamente – há que combater por Cristo contra os que são vítimas de uma perigosíssima ilusão que faz olhar com bons olhos a possibilidade de alcançar uma paz – necessariamente falsa, injusta, traidora e covarde – com os modernistas destruidores da Igreja.
Estimados fiéis: No que diz respeito a nós, mantenhamo-nos impassíveis no caminho que nos assinalou Monsenhor Lefebvre. Não peçamos liberdade, como os liberais. Não peçamos  um rincão na estrutura oficial da Igreja: sigamos exigindo o restabelecimento do Reinado de Cristo em tudo e em todos.
Nosso dever sagrado é combater por Cristo, não é mendigar  ao inimigo liberal, assassino das almas, aos hereges  modernistas que são como um tumor maligno no corpo da Igreja. Não se fazem acordos com esses tumores, eles são extirpados. Não estamos nas filas da Igreja militante para mendigar diante ao inimigo, senão para combatê-lo sem trégua, sem descanso, sem diplomacias mundanas, sem retrocessos nem abrandamentos, sem ambiguidades e sem acordos traidores.
Nossa vocação é combater até o fim, até a morte de cada um de nós, pela honra de Deus, pelos direitos sagrados da Verdade, pela reconquista da Igreja e do mundo para Cristo, Nosso Senhor.
Essa batalha é um dever de todos e de cada um dos católicos, não somente dos consagrados, por meio da oração assídua e da ação resoluta, sem essa hipocrisia farisaica que há em ser muito duro com os próximos e muito indulgente conosco, senão com o exemplo constante de uma conduta santa, isto é, humilde, mansa, cheia de esperança sobrenatural e de toda caridade, e simultaneamente, firme e intransigente na fé.
Disse o papa Leão XIII que "ceder ou calar quando de todos os lados se levanta tal clamor contra a verdade, é, ou bem desinteresse, ou bem duvidar da fé; nos dois casos é uma desonra e fazer uma injúria a Deus; é comprometer a própria salvação e a dos outros, é trabalhar em favor dos inimigos da fé, pois nada aumenta tanto a audácia dos maus, como a debilidade dos bons... os cristãos nasceram para a luta..."
Estimados fiéis: não nos façamos ilusões. Quem ama a Cristo, a Verdade, detesta as ilusões. "Sem mim nada podeis” (Jo  5, 15). É impossível vencermos a nós mesmos em nossas covardias e inconstâncias, sem a ajuda do Espírito Santo. Para sermos realmente fiéis a Cristo é necessário sermos revestidos do poder do alto (Lc 24, 49), e para isso há que abrir a alma a ação do Espírito Santo, ao modo como a terra se deixa abrir para receber a semente e dar fruto.
Peçamos, mediante a reza assídua do Santo, divino, milagroso e todo poderoso Rosário, a Santa Virgem Maria, Esposa de Deus Espírito Santo, que a restauração da Igreja e do mundo comece por nossas almas: que o Espírito Santo destrua o homem velho no campo de batalha de nossas almas e vitorioso tome posse total e definitiva delas.
 Tradução: Capela NossaSenhora das Alegrias - Vitória/ES

Ave Maria Puríssima! 
Sem pecado concebida!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A primeira oração Mariana

 Fragmento Papiráceo
  
Em síntese: Em 1917 a Biblioteca John Ryland, de Manchester, adquiriu no Egito um pequeno papiro, cujo conteúdo foi identificado em 1939; é o texto de uma oração dirigida a Maria Santíssima invocada como Theotókos (Mãe de Deus) no século III. Quando em 431 o Concilio de Éfeso proclamou Maria Theotókos, fez eco a uma tradição cujo primeiro termo conhecido remonta a Orígenes (243).

Em 1917 a Biblioteca John Ryland, de Manchester (Inglaterra), adquiriu no Egito um pequeno fragmento de papiro de 18 x 9,4 cm, que foi catalogado como Ryl. III, 470. Esse papiro apresenta uma oração mariana de grande importância tanto por seus dizeres como por sua data.

Examinaremos, a seguir, o conteúdo do papiro e a respectiva datação.

1. O conteúdo do papiro

O texto do fragmento papiráceo foi editado em 1938, sem que se tivessem até então identificado os seus dizeres. Isto só foi feito no ano seguinte por F. Mercenier: este pesquisador verificou que se tratava da oração mariana conhecida e recitada ainda hoje com as palavras iniciais "Sob a vossa proteção" (Sub tuum praesidium... em latim). Embora o texto não esteja completo, mas deteriorado pelas intempéries dos séculos (coisa normal entre os papiros), o sentido das palavras pode ser depreendido com clareza e segurança. Eis, a seguir, uma reprodução do papiro e a reconstrução do seu conteúdo. Entre colchetes estão coloca- das as letras gregas subentendidas para dar significado ao texto:

O texto, devidamente reconstituído, diz o seguinte:

Sob a tua misericórdia nos refugiamos. Mãe de Deus!
Não deixes de considerar as nossas súplicas em nossas dificuldades, Mas livra-nos do perigo, Única casta e bendita!

A oração, redigida na primeira pessoa do plural, parece ser, por isto mesmo, pertinente ao uso da Liturgia. Comentemo-la, levando em conta as traduções da mesma existentes nas diversas tradições litúrgicas.

Sob a tua misericórdia nos refugiamos... Uma das diferenças mais notáveis quando consideramos as versões recentes, está em que o antigo orante se refugiava debaixo da misericórdia de Maria, ao passo que o texto latino diz praesidium, proteção, asilo, defesa - o que parece ser mais sóbrio. A expressão "sob a tua misericórdia" se encontra nas versões bizantina, copta e ambrosiana, ao passo que a Liturgia síria reza mais enfaticamente ainda: "sob o manto da tua misericórdia". Por sua vez, o rito etíope diz: "sob a sombra de tuas asas".

Alguns manuscritos latinos do século X traduzem literalmente: sub tuis visceribus, isto é, em tuas entranhas nos refugiamos. Esta versão faz ressoar um semitismo bíblico: a misericórdia é comparada às entranhas de uma mãe, que em seu íntimo defende e abriga seu filho. Na verdade, o vocábulo grego eusplanchían significa boas entranhas. Como se vê, o texto original põe em relevo a confiança filial e a índole afetiva das relações entre o cristão orante e a Santa Mãe de Deus.

Theotókos. O título que comumente se traduz por "Mãe de Deus", quer dizer, ao pé da letra: "Aquela que deu à luz Deus", em latim Deipara. Este título professa que a pessoa que Maria deu à luz, é a pessoa do Filho de Deus ou a segunda Pessoa da SSma. Trindade na medida em que quis assumir a carne humana. Note-se que o vocábulo Theotóke é forma de vocativo; donde se depreende que a oração é dirigida a Maria, como expressão da grande antiguidade da devoção mariana no povo de Deus.

Não deixes de considerar as nossas súplicas em nossas dificuldades. Ao pé da letra, o fiel pede a Maria: "não afastes de nossas súplicas o teu olhar". Basta, pois, que a Mãe de Deus esteja atenta às nossas súplicas para que estejamos seguros. Não se trata, porém, de qualquer súplica, mas daquelas que brotam das dificuldades.

Mas livra-nos do perigo. Observe-se que o texto atual desta prece menciona "os perigos", ao passo que o papiro fala "do perigo". Quem recua até o ambiente egípcio do século III, verifica que o perigo por antonomásia eram as perseguições movidas pelo Império Romano contra os cristãos. O historiador Eusébio de Cesaréia (+339), em sua História da Igreja, descreve a grande crueldade das perseguições havidas no Egito. Por conseguinte, pode-se crer que a comunidade que compôs tal oração, em tempo de perseguição, recorria à proteção da misericórdia da Mãe de Deus. Se tal suposição é correta, vê-se que a oração refletia dramaticamente a alma do povo de Deus.

Única casta e bendita! A exclamação final professa a virgindade de Maria Santíssima. O termo agne significa pura, casta, santa; além da virgindade, proclama a fidelidade de Maria à vontade de Deus.

2. O problema da datação

Os estudiosos concordam entre si ao afirmar a grande antiguidade do texto, mas oscilam entre o século III e o século IV.

Os que preferem o século III valem-se de argumentos papirológicos (material sobre o qual se fez a escrita, tipo de letra, caligrafia...). Os partidários do século IV baseiam-se em razões de ordem doutrinária: o uso da expressão Theotókos, dizem, não se encontra antes do século IV. Todavia a pesquisa atenta das fontes literárias ou patrísticas leva a concluir claramente em favor do século III. Eis o que se pode apurar:

Por volta de 428 Nestório, Patriarca de Constantinopla, rejeitou o costume, arraigado no povo cristão, de chamar Maria Theotókos; preferia falar de Christotókos (a que deu à luz o Cristo). Com isto Nestório queria pretensamente salvaguardar a humanidade completa de Cristo, mas na verdade estava separando o divino e o humano em Jesus e negando a verdadeira Encarnação. A réplica a Nestório não se fez esperar. São Cirilo, Bispo de Alexandria, sede tradicionalmente oposta a Constantinopla em questões cristológicas, assumiu a defesa do título Theotókos. O Concilio geral de Éfeso em 431, valendo-se das palavras de Cirilo, declarou que os Santos Padres "não duvidaram chamar Theotókos à SSma. Virgem" - o que não queria dizer que a Divindade começou a existir a partir de Maria, mas que Aquele que nasceu de Maria, desde o seio materno está unido hipostaticamente ao Verbo de Deus.

A controvérsia assim oriunda tem suas raízes em épocas anteriores. Com efeito; quando Nestório se pôs a negar o título Theotókos, encontrou-o já inveterado no povo de Deus, principalmente no Egito ou na região de Alexandria. Retrocedendo ao século IV encontramos o grande Bispo Atanásio de Alexandria, que por volta de 340 atribuiu algumas vezes o título Theotókos a Maria SSma., tanto nos seus escritos contra os arianos quanto na sua Vida de Antão.

O antecessor de Atanásio na sede alexandrina, S. Alexandre, também usou tal título: numa de suas cartas afirma que o Verbo assumiu um corpo verdadeiro, e não aparente, de Maria, aTheotókos (PG 18, 568c).

Em 300 foi eleito Bispo de Alexandria Pedro I: ao referir-se ao mistério da Encarnação, chama duas vezes Maria Theotókos (PG 18,517b). Nem Pedro nem Alexandre nem Atanásio sentem a necessidade de justificar ou explicar o título - o que mostra que era tranquilamente aceito pelo povo de Deus.

Entrando agora no século III, notemos que o mártir alexandrino Piero (+300) cognominado Orígenes Júnior, escreveu um tratado sobre a Theotókos (Peri tes Theotókou), como refere Filipe de Side.

Recuando mais ainda, registra-se uma observação do historiador Sócrates, o Escolástico, na sua História da Igreja: afirma que Orígenes de Alexandria (+254) no início do seu comentário sobre a epístola aos Romanos (redigido por volta de 243), elaborou ampla explicação do sentido que tem o termo Theotókos; em tal caso pode-se crer que Orígenes sentia a necessidade de explicar o título mariano. Infelizmente, porém, esse comentário da epístola aos Romanos se perdeu. O vocábulo Theotókos ocorre ainda em alguns textos de Orígenes cuja autenticidade é discutida (o fragmento 80 sobre Lucas é tido geralmente como genuíno). Há certamente algumas afirmações de Orígenes, em suas homílias sobre São Lucas, que sugerem tenha Orígenes, já na primeira metade do século III, chamado Maria SSma. Theotókos.

Este título ocorre outrossim na obra As Bênçãos dos Patriarcas, de Hipólito de Roma (+235), que pode datar de fins do século II (julga-se, porém, que a referência ao título é devida a uma interpolação e não pertence à integridade do texto).

Como quer que seja, pode-se reconstituir a série de autores alexandrinos que aplicam a Maria a designação Theotókos: Orígenes, Piero, Pedro I, Alexandre e Atanásio; tal série vai de 243 a 340, evidenciando a antiguidade do texto.

Estes dados de literatura patrística são assaz significativos para que se possa atribuir a oração em pauta ao século III. Ela é testemunho de que a piedade mariana desde remotas épocas existe no povo de Deus, pondo em relevo a figura maternal de Maria: Mãe de Deus feito homem e Mãe dos homens que seguem a Cristo perseguido e vencedor da morte.
 
 Fonte: Almas Devotas

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Filme 'Monsenhor Lefebvre: um Bispo na tormenta' (2012)

Filme francês: "Monsenhor Lefebvre: um Bispo na tormenta", relata a vida do fundador da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X a partir de testemunhos inéditos daqueles que o conheceram e com base em numerosos documentos e arquivos.